Estava relendo "A Náusea" e apesar de já fazer tempo que li o determinado trecho que vou citar (e minha memória ser ruim o suficiente para não conseguir guardar as coisas por muito tempo) ainda me lembro claramente da passagem em que Antonie descreve seu horror de se olhar no espelho.
Me pego pensando nisso todos os dias, após o banho, nas passadas rápidas pelo banheiro, nos momentos de pentear o cabelo, na hora de escovar os dentes ou simplesmente quando me encontro perdido em ideias dentro do banheiro olhando para o espelho.
Já sentia isso a muito tempo antes de ler o livro, mas quando você vê um hábito seu ali escrito e extenuado em todas as palavras começa a perceber melhor quem você é e o quão banal e normal aparenta ser. Uma coisa que é tão normal e que tantas pessoas o fazem que foi até mesmo parar em um livro de algumas muitas décadas atrás.
Interessante como olhar no espelho me faz pensar, é como se estivesse olhando dentro de mim mesmo e nesse momento tudo clareasse, estivesse nu e cru, abertamente exposto aos meus olhos e livre de julgamentos, até mesmo dos meus, eu pudesse falar e analisar as reais situações.
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| Não deveria gostar tanto de coisas quebradas |
No momento olho e o que vejo são os pequenos traços do tempo escorrendo pelas faces. Olhos cansados, boca ferida, pálpebras caídas, olhar sem vida, rosto marcado, cabelo se aguentando, mas provavelmente o único que ainda tem um resquício de força e não vai durar por muito tempo.
Se começo a pensar, sob o olhar daqueles óculos vejo o passado, e as vezes as expectativas de futuro.
A ideia resultante não foi das mais agradáveis, mas ainda assim é válida.
Pequenos ciclos... Tudo se forma em pequenos ciclos.
Fugimos disso o máximo que gostaríamos, mas no fim das contas somos pegos de surpresa, eles ainda estão ali, tão incrustados na nossa alma que é impossível se livrar deles. Eles se repetem, as vezes em circunstancias e contextos diferentes, com formas diferentes, mas em essência é uma repetição.
As mãos tremem e o medo de uma coisa que não conhece lhe toma o corpo. Se tudo é um ciclo é melhor o manter assim? mesmo que no fim do ciclo você sempre se sinta mal? Pelo menos sabe por onde irá passar e o que virá, como tudo terminará. Tentar o desconhecido e se esforçar por isso é um passo em direção a mudança, mas as vezes até mesmo esse passo está previsto pelos seus ciclos e você rapidamente cai no imutável, agora com menos esperanças do que antes.
No fim, existem mudanças?
Agora os olhos castanhos, mas que mais parecem acinzentados pela falta de expressão me levam a um momento no futuro, um breve momento, uma palavra que despertou uma memória e uma expectativa não concretizada.
"No fim, nunca vi os tais óculos novos, nem consegui meus 15 minutos."
Sim... apenas uma ideia solta, não precisa de mais do que isso.
A placa no meu quarto irá entrar nesse contexto de ideia solta também. Tem duas frases escritas nela, na frente "Não sei por que abro a boca em casa. Me pergunto isso todos os dias." e atrás, escrito hoje, tem escrito "Vou acabar decepcionando mais e mais a todos e a mim mesmo."
Só não esperava a segunda frase se concretizar tão rápido, pelo menos na questão de me decepcionar. (*O que de fato é mentira, meu caro ser hipócrita e apenas bonito nas palavras que vive juntamente comigo. Desde o começo de qualquer coisa você sempre se imaginou se decepcionando, independente de quem seja, o que seja, onde seja, como seja. O seu senso "realista" sempre te faz pensar nisso e tentar se preparar... não consegue ver que é mais um de seus ciclos? até mesmo achar que está se surpreendendo e tomar esses choques de realidade vindos de si mesmo? Sua passividade e ingenuidade me fazem te menosprezar, se é que isso é possível*)
Fim do texto por motivos pessoais perturbadores. prefiro não transcrever o diálogo de uma pessoa que se segue. Um monólogo me prontificaria, mas não a expressão completa de insanidade. (*é fraco demais para admitir*)