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quarta-feira, 16 de maio de 2012

ciclos espelhados

Estava relendo "A Náusea" e apesar de já fazer tempo que li o determinado trecho que vou citar (e minha memória ser ruim o suficiente para não conseguir guardar as coisas por muito tempo) ainda me lembro claramente da passagem em que Antonie descreve seu horror de se olhar no espelho.

Me pego pensando nisso todos os dias, após o banho, nas passadas rápidas pelo banheiro, nos momentos de pentear o cabelo, na hora de escovar os dentes ou simplesmente quando me encontro perdido em ideias dentro do banheiro olhando para o espelho.
Já sentia isso a muito tempo antes de ler o livro, mas quando você vê um hábito seu ali escrito e extenuado em todas as palavras começa a perceber melhor quem você é e o quão banal e normal aparenta ser. Uma coisa que é tão normal e que tantas pessoas o fazem que foi até mesmo parar em um livro de algumas muitas décadas atrás.

Interessante como olhar no espelho me faz pensar, é como se estivesse olhando dentro de mim mesmo e nesse momento tudo clareasse, estivesse nu e cru, abertamente exposto aos meus olhos e livre de julgamentos, até mesmo dos meus, eu pudesse falar e analisar as reais situações.

Não deveria gostar tanto de coisas quebradas

No momento olho e o que vejo são os pequenos traços do tempo escorrendo pelas faces. Olhos cansados, boca ferida, pálpebras caídas, olhar sem vida, rosto marcado, cabelo se aguentando, mas provavelmente o único que ainda tem um resquício de força e não vai durar por muito tempo.
Se começo a pensar, sob o olhar daqueles óculos vejo o passado, e as vezes as expectativas de futuro.
A ideia resultante não foi das mais agradáveis, mas ainda assim é válida.

Pequenos ciclos... Tudo se forma em pequenos ciclos.
Fugimos disso o máximo que  gostaríamos, mas no fim das contas somos pegos de surpresa, eles ainda estão ali, tão incrustados na nossa alma que é impossível se livrar deles. Eles se repetem, as vezes em circunstancias e contextos diferentes, com formas diferentes, mas em essência é uma repetição.

As mãos tremem e o medo de uma coisa que não conhece lhe toma o corpo. Se tudo é um ciclo é melhor o manter assim? mesmo que no fim do ciclo você sempre se sinta mal? Pelo menos sabe por onde irá passar e o que virá, como tudo terminará. Tentar o desconhecido e se esforçar por isso é um passo em direção a mudança, mas as vezes até mesmo esse passo está previsto pelos seus ciclos e você rapidamente cai no imutável, agora com menos esperanças do que antes.
No fim, existem mudanças?

Agora os olhos castanhos, mas que mais parecem acinzentados pela falta de expressão me levam a um momento no futuro, um breve momento, uma palavra que despertou uma memória e uma expectativa não concretizada.
"No fim, nunca vi os tais óculos novos, nem consegui meus 15 minutos."
Sim... apenas uma ideia solta, não precisa de mais do que isso.
A placa no meu quarto irá entrar nesse contexto de ideia solta também. Tem duas frases escritas nela, na frente "Não sei por que abro a boca em casa. Me pergunto isso todos os dias." e atrás, escrito hoje, tem escrito "Vou acabar decepcionando mais e mais a todos e a mim mesmo."
Só não esperava a segunda frase se concretizar tão rápido, pelo menos na questão de me decepcionar. (*O que de fato é mentira, meu caro ser hipócrita e apenas bonito nas palavras que vive juntamente comigo. Desde o começo de qualquer coisa você sempre se imaginou se decepcionando, independente de quem seja, o que seja, onde seja, como seja. O seu senso "realista" sempre te faz pensar nisso e tentar se preparar... não consegue ver que é mais um de seus ciclos? até mesmo achar que está se surpreendendo e tomar esses choques de realidade vindos de si mesmo? Sua passividade e ingenuidade me fazem te menosprezar, se é que isso é possível*)

Fim do texto por motivos pessoais perturbadores. prefiro não transcrever o diálogo de uma pessoa que se segue. Um monólogo me prontificaria, mas não a expressão completa de insanidade. (*é fraco demais para admitir*)

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Vozes internas


A multiplicidade do ser é um campo da psicologia que me fascina a muito tempo. Sempre achei interessante e curioso a possibilidade de se poder contrariar a lei da física que diz que dois objetos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Mas imagine a possibilidade de dois seres diferentes, as vezes completamente opostos, ocupando um mesmo corpo e perturbando uma mesma mente.

Recentemente comecei a ouvir mais as vozes dentro da minha cabeça. Seus conselhos e frases entrecortadas em geral não fazem sentido nenhum, mas reparar nisso me levou a notar algumas outras coisas.

Quando com sono, minha mente fica muito mais vezes em estado automático do que o normal, e nesses momentos é que parece existir uma pequena guerra civil para saber quem domina o cérebro e os pensamentos. Quando menos espero me vejo com o lado racional derrotado e a mente perdida em devaneios pitorescos e algumas vezes degradantes e improváveis, ou simplesmente psicodélicos o suficiente para serem questionados e duvidados no primeiro instante, mas ainda assim não o são pois o líder atual institui que aquilo é normal e aceitável.

Existem vozes que falam comigo. Pode parecer esquizofrenia, mas não o creio. Em geral é aquela voz de auto-crítica que te ajuda nas decisões, te diz as coisas de acordo com seus conhecimentos e experiências passadas. Deve ser essa a chamada Consciência. Quando não é assim são um grupo, as vezes pequeno, as vezes grande, falando todos juntos em um discurso infindável e ininteligível. Se consigo me focar em uma unica voz logo entro em sua conversa e me lembro de coisas passadas, como se fosse um reflexo do passado sofrendo perturbação como quando se joga uma pedra na água e as ondas formadas distorcem o reflexo.
Certa vez estava lendo artigos aleatórios e lembro ter visto falar sobre esse tipo de teoria, de que dentro da nossa mente existem vários alter-egos, e um deles dominante e este é nossa própria pessoa, mas os outros vivem junto conosco e tentam usar os momentos de menos atenção da personalidade principal para tomar a dianteira. Sim, é uma ideia absurda, mas por que não viável? pelo menos nos leva a imaginar e meditar sobre o assunto.

As muitas letras possíveis que podemos desenvolver, devem dizer muito de nós. Pessoas podem ser completamente analisadas e mapeadas apenas por meio de uma redação. O que devo interpretar sobre as minhas três letras diferentes que uso?
Letra de mão em algumas situações, poucas e de humor específico.
Letra de forma maiúscula, todos os dias a partir do momento que piso os pés dentro de casa, como se minha mente e humor mudasse completamente de forma que apenas a forma rígida e mascarada sem expressar nada que apenas a letra maiúscula seria capaz de expressar.
Letra de forma minúscula com letras de mão incrustadas sutilmente ou inconscientemente. Uso isso na maior parte do tempo, como se esse fosse o meu eu verdadeiro, uma mistura de vários acontecimentos com o passar do tempo formando um conjunto todo costurado e torto, quase como um monstro de Frankenstein das letras e formas de escrever.

Muito poderia ser dito, muito também pode ser confundido com múltiplas personalidades, como por exemplo a bipolaridade, ou a simples indecisão e incoerência de uma pessoa.
Mentes fracas, pouco treinadas para lidar consigo mesmo acabam escapando as margens dessas linhas que separam a sanidade da loucura.
Me vejo a cada dia mais próximo dessa margem, como se o fato de me questionar tanto fizesse um mal mental. Ter tanta consciência pode ser uma benção mas também a chave das portas para uma maldição. Isso constantemente me leva a pensar se os loucos na verdade não são pessoas com a mente aberta demais ou que tem tanta consciência das coisas a sua volta que são anormais para os que não percebem. Pessoas que não tem com quem conversar, ninguém além de si mesmos capaz de entender, atadas às suas vozes internas e condenadas a serem julgadas por isso, incapazes de serem compreendidas ou evitando que o sejam para não infectarem outras pessoas com essa solidão.